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O homem com sorte - China
Recontado por Giliane Ingratta Góes
 
Há muito tempo atrás, na China, havia um rapaz chamado Chin Po-wan. Em chinês, Chin significa "ouro" e Po-wan significa "milhão". Este nome era perfeito para ele, pois a família Po-wan tinha uma fortuna imensa e ele tinha um coração de ouro.
Por causa do seu nome e da fortuna de sua família, Po-wan achava que nunca deixaria de ser rico. Aos pobres, ele dava sem contar dinheiro, comida e roupas. Àqueles que não tinham casa, dava um lugar para morar. Às viúvas e órfãos, dava dinheiro para que tivessem uma vida digna pelo resto dos seus dias.
A fortuna de Po-wan, no entanto, acabou se esgotando, mas mesmo assim, ele continuava dividindo o pouco que lhe restava.
Certo dia, ao compartilhar sua tigela de arroz com um mendigo, entristeceu-se por ter tão pouco para dar.
- Por que sou tão pobre? - pensou. - Por que só tenho um punhado de arroz para dar a esse pobre homem?
Essa pergunta o acompanhou durante dias e noites. Não conseguindo encontrar uma resposta decidiu que iria falar com Kuan Yin, a bela deusa da compaixão e da bondade.
- Kuan Yin conhece o passado e o futuro - ele pensou. - Com certeza vai poder responder à minha pergunta.
Assim, Chin Po-wan tomou o caminho rumo ao Mar do Sul, onde vivia Kuan Yin. Passou por muitas terras desconhecidas até que chegou à margem de um rio largo e caudaloso. Estava pensando em uma maneira de atravessá-lo, quando uma voz grave trovejou, vindo do cume de um rochedo.
- Chin Po-wan - disse a voz -, já que está indo para o Mar do Sul, poderia levar uma pergunta minha à deusa Kuan Yin?
Po-wan nunca havia recusado nada a ninguém. Além disso, ele sabia que Kuan Yin permitia que cada pessoa fizesse três perguntas, e ele mesmo só queria fazer uma.
Antes mesmo de olhar de onde vinha a voz, respondeu:
- Claro, claro que posso.
Então, olhando para cima viu uma serpente imensa, o corpo enrolado coroando o rochedo. Po-wan ficou aliviado por ter concordado tão prontamente.
- Por favor, pergunte a ela por que ainda não me tornei um dragão, apesar de ter praticado bondade e autocontrole durante mil anos - disse a serpente.
- Sim, sim, com certeza perguntarei! - disse Po-wan, na esperança de que o réptil continuasse praticando bondade e autocontrole e não o devorasse. - Isto é, se eu conseguir atravessar este rio.
- Ora, isso não é problema - disse a serpente. - Suba nas minhas costas, eu o levarei até o outro lado.
Po-wan escalou o corpo escamoso e largo da serpente e logo chegou, são e salvo, à outra margem do rio. Agradeceu sinceramente à imensa criatura, despediu-se e seguiu seu caminho rumo ao Mar do Sul.
Andou muito aquele dia e já estava ficando com fome quando, felizmente, chegou a uma estalagem onde pôde comprar uma tigela de arroz. Enquanto esperava pela comida, puxou conversa com o dono. Soube que aquela imensa serpente era muito estimada na região, pois impedia que bandidos e outros malfeitores atravessassem o rio. Po-wan, por sua vez, contou que estava indo ao encontro da deusa viva Kuan Yin.
- Ah! - disse o homem -, eu ficaria agradecido se você lhe fizesse uma pergunta por mim. Tenho uma filha que é bonita, bondosa e inteligente. Apesar de já ter vinte anos, ela nunca pronunciou uma palavra. Será que você poderia perguntar à deusa por que minha filha não fala?
Po-wan não podia recusar. Disse ao dono da estalagem:
- Não se preocupe. Vou perguntar sobre sua filha, e tenho certeza de que tudo vai dar certo para ela.
- Afinal - Po-wan pensou -, tenho direito a três perguntas e eu mesmo só tenho uma para fazer.
Po-wan retomou a caminhada. Dias se passaram. Uma noite, já muito cansado, bateu à porta de uma bela residência para pedir hospitalidade. O dono da casa, homem rico e cultivado, acolheu-o muito bem. Ofereceu-lhe uma deliciosa refeição e depois o levou a um quarto confortável. Na manhã seguinte, Po-wan acordou revigorado e pronto para seguir viagem. Agradeceu e ia se despedindo do seu anfitrião quando este perguntou:
- Para onde está indo?
- Para o Mar do Sul - respondeu Po-wan.
- Ah, se está indo ao Mar do Sul decerto vai encontrar a deusa viva Kuan Yin. Será que poderia lhe fazer uma pergunta por mim? Moro nesta casa há muitos anos e sempre cuidei muito bem do meu jardim. Acontece que as plantas não dão flores nem frutos. E o pior é o silêncio, pois sem frutos não há cantos de pássaros, e sem flores não há zunido de abelhas. Meu jardim é um lugar muito triste. Ficaria muito agradecido se você pudesse perguntar à deusa por que isso acontece.
- Ficarei muito honrado em lhe fazer sua pergunta - disse Po-wan, e depois continuou sua viagem.
Ele queria ajudar aquele homem tão bom. Além disso, Kuan Yin permitia a cada pessoa fazer três perguntas, e ele mesmo só tinha uma... mais uma da serpente, uma do dono da estalagem e uma do homem do jardim.
- Ora, ora!
Po-wan parou e seu coração disparou quando ele se deu conta de que havia uma pergunta a mais.
Estava em apuros! Ele tinha quatro perguntas importantes a fazer e só podia fazer três. Qual delas ele deixaria de lado?
Enquanto Po-wan caminhava, tentava encontrar uma solução.
Finalmente, ele pensou:
- Prometi, portanto preciso cumprir com minha palavra. Além disso, mesmo que eu não faça minha pergunta, esta viagem não terá sido em vão. Pelo menos, essas três criaturas poderão resolver seus problemas.
Quando chegou ao Mar do Sul, o coração de Po-wan estava sereno.
Finalmente encontrou Kuan Yin. A deusa era tão linda e irradiava tanta bondade que Po-wan sentiu-se profundamente agradecido. Inclinou-se diante dela e fez as três perguntas.
- A Serpente do Rochedo - começou - praticou bondade e autocontrole durante mil anos, mas ainda não se tornou um dragão, ela quer muito saber por quê.
- A serpente tem, sobre a cabeça, sete pérolas brilhantes. Se seis delas forem retiradas, ela se tornará um dragão - respondeu a deusa.
- Obrigada, senhora - disse Po-wan. - Agora eis minha segunda pergunta. Há um dono de estalagem cuja filha chegou aos vinte anos de idade sem nunca pronunciar uma palavra. Ele gostaria muito de saber por que isso acontece.
- Por causa de coisas que aconteceram em suas vidas passadas. O destino dela é ser incapaz de falar até o dia em que puser os olhos no homem que será seu esposo.
- Obrigado, mais uma vez, senhora - disse Po-wan. - Agora, minha última pergunta: Um homem muito rico me acolheu em sua casa. Ele tem um jardim que ama e cuida há muitos anos, mas as plantas não florescem nem dão frutos, nele não há cantos de pássaros nem zunido de abelhas. Ele ficaria muito feliz em saber o que pode fazer para mudar essa triste realidade.
- Há sete potes de ouro e prata enterrados no jardim dele - respondeu Kuan Yin. - Se ele der metade dessa fortuna, seu jardim irá florescer e dar frutos.
Respeitosamente, Po-wan agradeceu Kuan Yin uma última vez e se afastou.
Ele sentou-se debaixo de uma árvore e escreveu o que a deusa havia dito, para ter certeza de não esquecer nem uma palavra. Então, começou sua viagem de volta.
Primeiro parou na casa do homem rico que não demorou em encontrar os potes de ouro e prata em seu jardim. Ele ficou tão agradecido que deu metade dessa fortuna a Po-wan.
Depois, Po-wan chegou à cidadezinha onde ficava a estalagem. A filha do dono, vendo- o pela janela, exclamou:
- Ah, Chin Po-wan, você voltou do Mar do Sul! O que foi que a deusa disse?
O dono da estalagem não cabia em si de tanta felicidade. Frente à evidência do amor que havia nascido entre os dois jovens, o estalajadeiro logo concordou com o casamento.
Então Po-wan foi até o rio caudaloso para dar à serpente o recado de Kuan Yin. A serpente tirou seis das sete pérolas que ornavam sua cabeça. Assim que deu as seis pérolas para Po-wan, ela se transformou num magnífico dragão.