Ações e destinos - Índia
Recontado por Giliane Ingratta Góes
 
Numa floresta vivia um eremita que era capaz de predizer o futuro. Pessoas afluíam sem parar querendo saber o seu destino, a ponto que mal sobrava tempo para o sábio meditar. Então, ele embrenhou-se cada vez mais na floresta e, finalmente, conseguiu escapar da multidão e reencontrar a paz.
Um dia, Vidur e Vijay perderam-se na floresta. Os dois amigos vaguearam à procura de um abrigo e, já de noite, avistaram uma luz no meio das árvores. Aproximaram-se da cabana e, pela janela, descobriram um velho mergulhado em profunda meditação. Logo imaginaram que ele devia ser o eremita famoso por suas predições.
Entraram em silêncio, sentaram no chão e esperam. Quando o eremita abriu os olhos, prostraram-se diante dele.
O eremita deu-lhes algumas frutas e ouviu sua história.
"Podem descansar", disse, "amanhã um dos meus discípulos mostrará a vocês como sair da floresta".
Na hora da partida, os dois amigos não resistiram e pediram ao eremita que falasse sobre seu futuro. Este respondeu:
"Devem saber que não gosto de predizer o futuro. Além disso, seu futuro como está agora, pode vir a mudar."
Mas a curiosidade dos dois jovens venceu a resistência do eremita.
"Está bem", disse ele, "Sentem-se" e ele mergulhou num profundo estado meditativo.
Então, olhando para Vidur, disse com voz firme:
"Você será um rei daqui a um ano".
E olhando para Vijay, disse:
"Sinto dizer que, daqui a um ano, você morrerá nas mãos de um assassino."
Os dois amigos inclinaram-se, agradeceram e seguiram o discípulo que havia chegado com o nascer do sol e que ia guiá-los.
Uma vez na floresta, Vidur não podendo conter a alegria dançava como um possesso. Vijay, por sua vez, ficava cada vez mais sombrio, o que era muito natural.
De volta à cidade, Vidur passou a se comportar com orgulho e arrogância. Quando ficava aborrecido com uma pessoa ameaçava usar o seu futuro poder para castigá-la.
Vijay, que era um professor, fazia seu trabalho com devoção, servia as pessoas à sua volta e passava o resto de seu tempo orando. Aos poucos, o medo e a tristeza foram se afastando. Ele deixou de pensar na morte e sentiu-se em paz. Havia se colocado nas mãos da Providência.
 
Nove meses se passaram. Um dia, Vidur convidou Vijay a acompanhá-lo para procurar um lugar onde construir seu futuro palácio.
Subindo uma colina para, do seu topo, contemplar a região, Vidur tropeçou num pote meio enterrado. Quando viu o ouro que havia nele ficou pulando de alegria e gritando:
"Minha sorte está chegando! Logo serei rei!"
Então, um bandido surgiu, como se tivesse caído do céu, e tentou arrancar o pote das mãos de Vidur. Vijay agarrou o ladrão e, na luta que seguiu, teve o ombro ferido pelo punhal do bandido. Este, no entanto, reconhecendo a superioridade de seu adversário, achou melhor fugir.
Vidur, agradecido, quis dividir com seu amigo a riqueza que o pote continha. Vijay recusou, pois como havia de morrer logo, não necessitava de dinheiro.
Como Vidur tinha certeza que este ouro era apenas o início de uma fortuna muito maior, foi gastando à-toa tudo que tinha.
Finalmente, um ano se passou. Vidur não tinha se tornado rei e Vijay ainda estava vivo.
Os dois amigos resolveram procurar o eremita para que explicasse essa situação misteriosa.
"Senhor, por que suas profecias deram errado?", perguntaram-lhe quando o encontraram.
O eremita sentou-se em meditação por um longo tempo. Então, disse a Vidur:
"Seu destino mudou por causa de suas estúpidas ações durante estes meses. A coroa que lhe era destinada, foi reduzida a um pote cheio de ouro que você achou no campo".
Virando-se então para Vijay, disse:
"Suas preces, humildade e confiança na Providência mudaram seu destino também. A morte pela mão de um assassino foi reduzida a um mero ferimento".
Os dois amigos fizeram uma profunda reverência e tomaram o caminho de volta em silêncio.